Volta e meia costumo ler o blog da Rita. Eu gosto da Rita, acho que é uma gaja às direitas.
De profissão, além de outras, tem uma que admiro, que é a de doula. Ela sabe como funciona o corpo de uma mulher. Sabe porque é uma, que o experimenta na sua plenitude, e sabe porque o seu trabalho é o de acompanhar mulheres nas suas gravidezes.
E hoje tocou num tema que acho interessante explorar: a aplicação excessiva e voluntária de cesarianas para realizar partos.
Para mim, que já passei pelo evento de dar à luz, tenho que a cesariana e a indução de partos, quando não aplicadas em casos de claro risco e necessidade, são duas intervenções impingidas por homens.
O parto sempre foi um momento feminino. Na hora de trazer a criança ao mundo, os homens eram expulsos e as mulheres rodeavam a futura mãe para a ajudar no processo.
A parteira, ou a ‘midwife’ em inglês, sempre foi uma mulher, nunca um ‘midhusband’.
O acto de parir é algo que demora 9 meses a tomar forma e, de maneira alguma, é compreensível sem que por ele tenhamos passado.
As mudanças físicas, e psicológicas, são imensuráveis e é nessa altura que percebemos que fazemos parte de algo maior que nós: a Natureza, que foi a que nos deu a capacidade de nos auto-superarmos num acto de transformação único.
E será possível explicar isto a um homem? Não me parece.
Vai daí que, no advento da medicina moderna, no seu desejo de controlo absoluto, tratou de transformar este acto natural, até então interdito ao seu sexo, numa intervenção cirúrgica.
Assim, podia fazer parte. Tinha uma palavra a dizer. Controlava e exercia pressão. Agora, já nem dar à luz ela podia sem ele.
Hoje, muitos obstetras ilustram as futuras mães sobre a conveniência de induzir partos ou marcar cesarianas nos dias que lhe são mais convenientes, como se o nascimento de uma criança fosse algo tão insignificante que pudesse ser marcado na sua agenda, entre a consulta das 11h e o almoço com o amigo .
E elas, mal informadas, pressionadas, assustadas, e acima de tudo inexperientes, acreditam. E marcam. E têm os filhos pela barriga, porque assim “quando acordam o bébé já está vestido ao seu lado”. Ou induzem partos, e incorrem em experiências dolorosas e traumáticas porque não deixaram o seu corpo seguir o caminho que necessitava, naturalmente.
Esta imagem abaixo é de uma ‘invenção’ patenteada de 1965, supostamente para ajudar as ‘mulheres civilizadas’ a darem à luz, pois não teriam um sistema muscular suficientemente forte para o fazerem por si próprias.
Claro. Se segundo a concepção do homem, uma mulher nem tem vagina, a não ser para receber o seu pénis, quanto mais para fazer sair um ser humano?
Olho para a máquina e parece-me um instrumento de tortura medieval.
Pensando bem, dizerem-me que é mais ‘prático’ abrirem-me para retirarem o meu filho também me parece muito medieval.

Para ler, na New Yorker, um artigo sobre a evolução da Obstetrícia.
Para rir, o muito conhecido sketch dos Monty Python que retrata um nascimento no esplendor da Medicina.