the raging suffragette

isto dava um filme

No Correio da Manhã, notícia sobre o novo regulamento interno da EB 2,3 José Maria dos Santos, imposto pela Sra. Natividade de Azeredo:

“Alunos, professores e funcionários da Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos José Maria dos Santos, no Pinhal Novo (Palmela), estão proibidos de vestir tops com decotes pronunciados, minissaias muito curtas e calças descaídas. Natividade de Azeredo, presidente do Conselho Executivo (CE), confirmou as regras ao CM, explicando tratar-se de uma emenda ao regulamento interno da escola, resultado de situações verificadas na sala de aula.
(…)
‘Um professor sentiu-se incomodado por conseguir ver as cuequinhas de uma menina, devido à minissaia muito curta que ela trazia vestida’”



Ao ler esta notícia, imaginei o professor fixado nas cuecas da aluna.
Depois, imaginei o professor a ir ter com a Sra.Natividade e explicar-lhe o seu “incómodo” ao fixar o olhar na roupa interior de quem não devia.

Depois imaginei, o professor e a Natividade a chamarem a aluna ao gabinete, e explicarem-lhe que o professor se sentiu “incomodado” quando reparou nas cuequinhas dela e daí não conseguiu desviar o olhar até ao final da aula e que, por bem da sanidade mental do docente, seria melhor se esta passasse a usar saias compridas e calças largas.

Agora imaginem a Natividade e a Pulquéria (sim, a tal da loja do cidadão) juntas. Feitas dupla que corre o país de Norte a Sul, varrendo escolas e serviços públicos confiscando saias curtas, decotes profundos e roupa interior provocante.
À noite, Pulquéria e Natividade experimentam à vez as peças de roupa confiscadas e castigam-se, uma à outra, com umas valentes palmadas e outras coisas indescritíveis. O tal professor pode ver, mas não tocar.

A sério. Sou a única que imagina estes filmes quando lê notícias destas?

É que a minha conclusão é que o problema não está nas cuecas da rapariga, mas nos olhos do professor. Ao estilo do Islão ortodoxo, toca a tapar as meninas, não vão elas despertar desejos incontroláveis nos professores. Afinal, não sabemos o que é que eles podem fazer quando se sentem “incomodados”.

P.S.-Podem substituir a palavra “incomodado” pela que acharem mais adequada dada a situação.

May 13th 2009

o parto masculinizado

Volta e meia costumo ler o blog da Rita. Eu gosto da Rita, acho que é uma gaja às direitas.
De profissão, além de outras, tem uma que admiro, que é a de doula. Ela sabe como funciona o corpo de uma mulher. Sabe porque é uma, que o experimenta na sua plenitude, e sabe porque o seu trabalho é o de acompanhar mulheres nas suas gravidezes.

E hoje tocou num tema que acho interessante explorar: a aplicação excessiva e voluntária de cesarianas para realizar partos.

Para mim, que já passei pelo evento de dar à luz, tenho que a cesariana e a indução de partos, quando não aplicadas em casos de claro risco e necessidade, são duas intervenções impingidas por homens.

O parto sempre foi um momento feminino. Na hora de trazer a criança ao mundo, os homens eram expulsos e as mulheres rodeavam a futura mãe para a ajudar no processo.
A parteira, ou a ‘midwife’ em inglês, sempre foi uma mulher, nunca um ‘midhusband’.

O acto de parir é algo que demora 9 meses a tomar forma e, de maneira alguma, é compreensível sem que por ele tenhamos passado.
As mudanças físicas, e psicológicas, são imensuráveis e é nessa altura que percebemos que fazemos parte de algo maior que nós: a Natureza, que foi a que nos deu a capacidade de nos auto-superarmos num acto de transformação único.

E será possível explicar isto a um homem? Não me parece.
Vai daí que, no advento da medicina moderna, no seu desejo de controlo absoluto, tratou de transformar este acto natural, até então interdito ao seu sexo, numa intervenção cirúrgica.
Assim, podia fazer parte. Tinha uma palavra a dizer. Controlava e exercia pressão. Agora, já nem dar à luz ela podia sem ele.

Hoje, muitos obstetras ilustram as futuras mães sobre a conveniência de induzir partos ou marcar cesarianas nos dias que lhe são mais convenientes, como se o nascimento de uma criança fosse algo tão insignificante que pudesse ser marcado na sua agenda, entre a consulta das 11h e o almoço com o amigo .

E elas, mal informadas, pressionadas, assustadas, e acima de tudo inexperientes, acreditam. E marcam. E têm os filhos pela barriga, porque assim “quando acordam o bébé já está vestido ao seu lado”. Ou induzem partos, e incorrem em experiências dolorosas e traumáticas porque não deixaram o seu corpo seguir o caminho que necessitava, naturalmente.

Esta imagem abaixo é de uma ‘invenção’ patenteada de 1965, supostamente para ajudar as ‘mulheres civilizadas’ a darem à luz, pois não teriam um sistema muscular suficientemente forte para o fazerem por si próprias.
Claro. Se segundo a concepção do homem, uma mulher nem tem vagina, a não ser para receber o seu pénis, quanto mais para fazer sair um ser humano?

Olho para a máquina e parece-me um instrumento de tortura medieval.
Pensando bem, dizerem-me que é mais ‘prático’ abrirem-me para retirarem o meu filho também me parece muito medieval.

Para ler, na New Yorker, um artigo sobre a evolução da Obstetrícia.
Para rir, o muito conhecido sketch dos Monty Python que retrata um nascimento no esplendor da Medicina.

April 19th 2009

e eles?

No Público de hoje:

(…) As funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, inaugurada a 3 de Abril, foram proibidas de usar saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos. As instruções foram dadas numa acção de formação antes da abertura da loja, denunciou uma funcionária.

Segundo conta hoje o “Correio da Manhã”, as instruções foram apresentadas durante uma acção de formação promovida pela Agência de Modernização Administrativa. (…)

A D.Maria Pulquéria Lúcio, vogal do Conselho Directivo da agência, diz que é importante que as funcionárias apresentem uma imagem cuidada.

Mas eu pergunto-me: só trabalham mulheres na loja do cidadão, ou os funcionários masculinos também têm por hábito usar saia curta, decote e tacões altos? Se não é esse o caso, parece-me que só se deram ao trabalho de criar regras de imagem para as mulheres, como se um homem tivesse sempre uma aparência cuidada, independentemente do que veste.

Eu proponho que se criem regras em igual medida para os funcionários masculinos, proibindo-se os penteados com gel, calças demasiado justas na braguilha, ourivesaria em geral e decote (entenda-se camisa aberta a expôr pêlos do peito, ou pior, um peito depilado. Ugh).
A roupa interior escura está proibida para os dois lados, e a Pulquéria fará a inspecção individualmente a cada mulher e homem, diariamente, antes da loja abrir.

Marota, a Pulquéria, é o que é.
Quando eu tiver uma loja do cidadão só para mim, também vou obrigar os funcionários a usar a roupa interior que me apetecer.


April 10th 2009